Sto Antão

Santo Antão - Padroeiro dos Nossos Animais

Manuel Luiz Fernandes Gonçalves


Quer a Tradição que Antão, ou António, terá nascido no seio de família abastada pelo ano 251 d.C. em Quema (Heracléopolis) na margem esquerda do Nilo, Egipto Central, encetado vida de anacoreta aos 18 anos na solidão do deserto, abrigando-se em túmulos, castelos em ruínas e cavernas, nas quais diversas espécies de animais se constituiram em regular companhia.

Intrépido, sai do deserto em 311 para acorrer aos cristãos perseguidos em Alexandria, onde também denuncia as concepções do heresiarca Ario que negava a natureza divina de Cristo. 

É-lhe atribuída a redacção das 7 Cartas dirigidas aos mosteiros que iam surgindo do Mar Vermelho às margens do Nilo. Os seus dias terão chegado ao fim em 356 com a idade de 105 anos. É da lenda popular que a sua sepultura terá sido descoberta em 565, o seu corpo transportado para Alexandria; daqui para Constantinopola em 635 ; já no séc. X as suas relíquias terão vindo para Saint Didier de la Motte (em França – département de Isère) e, em 1491, repousado em Saint Julien d’Arles (França, département  Bouches du Rhône).

Mas onde, quando e como é que Santo Antão passou a  ser associado com os animais, consagrando-o como seu excelso Padroeiro, são três questões de nada fácil deslinde. O culto antaniano – dizem outros antoniano – terá surgido logo na Igreja grega do séc. V e, desta, passado às igrejas do Ocidente em pleno Médioevo. Os rigores duma existência no deserto perante as seduções da vida de prazer a que renunciara, serão as tentações mafarricas da carne logo representadas no quió-quió, reco-reco porcino. A segunda hipótese de explicação vai pela convivência do eremita com todos os animais. Terá sido já no séc. X que a invocação contra as epidemias, o mal ou a maleita do fogo-de-Santo Antão,vulgo herpes, popularizou a intercessão miraculosa do nosso Santo a favor do bibo : gado vacum, equino, muar, asinino, ovino, caprino, bem como animais de estimação, todos ficaram ao abrigo do seu capote espiritual e ao alcance do seu báculo punidor, se tresmalhos houver.

Hoje, de guarda à porta principal da nossa igreja em Aldeia do Bispo – Sancti Michaelis de Aldea Episcopi,  assim designada em 17 de Setembro de 1365 na prebenda para o clérigo Gil Esteves – lá temos  o Padroeiro Santo Antão. Para muitos de nós é tão-só a Igreja de Santo Antão. Santo Antão é Padroeiro, São Miguel Arcanjo é o Orago.

Romagem
Nas memórias parochias de Aldeia do Bispo, escreve em 1758, o cura da nossa igreja, que os moradores de NAVASFRIAS (povo vizinho jà em território espanhol) vinham em romagem à igreja de Santo Antão, no dia 17 de Janeiro. Os moradores de ALDEIA VELHA, LAGEOSA e FORCALHOS vinham no dia 8 de Maio (dia de São Miguel).

“… Á capela de Santo Antam no seo dia, a dez e sete de Janeiro, vem em romagem todos os annos, os moradores de Navas Frias, vem também em romagem a igreja deste povo todos os annos, no dia oito de Maio, os moradores do lugar dos Forcalhos, e os moradores de Aldeia Velha e os do lugar da Lagioza”…
Aldeia do Bispo, vinte e cinco de Mayo deste anno de mil e sete centos e cincoenta e outo annos.
O Cura: Antonio Gonçalves Bazilio
In “Memória paroquial de Aldeia do Bispo – ANTT, Dicionário Geográfico, vol. 2, Doc 17, p. 153”

Festa de Santo Antão em Aldeia do Bispo
Santo Antão, protector dos animais, festeja-se a 17 de Janeiro.
Em alguns anos, quando coincidia com dia de trabalho, passava para o domingo a seguir (Cf. 17 de Janeiro de 1952), mais recentemente também se verifica esse facto.
Os animais davam três voltas à igreja e eram benzidos.
Esse constume está em vias de desaparecer por falta de gado e vontade dos donos.

“No dia dessa festa há missa e procissão pelas ruas principais da aldeia. Até há alguns anos, no final da missa, arrematavam-se algumas ofertas, produto de promessa ao Santo. Eram chispes e línguas de porco e apetitosos chouriços e chouriças, pois a época das matanças tinha passado há pouco tempo”.

 In “ Aldeia do Bispo – Princesa da Raia. –  de Maria José Bernardo Ricárdio Costa e Maria Aurora Bernardo Ricárdio Pacheco – Edição das autoras – Julho 2003.”

Aquando das “Janeiras”, no dia 1 de Janeiro, a Mordomia (na actualidade, são nomeados quatro mordomos) vai angariar fundos dos residentes para organização da festa com baile, quermesse, petiscos, e por vezes, a participação de uma filarmónica, nunca faltando os foguetes.
A filarmónica actua pelas ruas da aldeia e na missa solene. 
Na procissão, a imagem de Santo Antão no seu andor florido é levada pelo Mordomos, a acompanhada pela sua bandeira.
Nesse dia, a Mordomia fica incumbida da ornamentação de todos os altares dos santos da Igreja, durante o ano, sómente do altar de Santo Antão.

Quadra em honra de Santo Antão
O nosso Conterrâneo Sr José Maria escrevou estes versos em honra do nosso Santo Antão, que passamos a transcrever :


A dezassete de Janeiro
É o dia de Santo Antão
Para não fugir à regra
Cai sempre um grande nevão.

O nosso rico Santo Antão
Da capela vai saindo
Olha a multidão
Que para ti está sorrindo.

Ó meu rico Santo Antão
Já tens a banda a tocar
Com o brilho dos teus olhos
Já tens a rua a brilhar.

Este nosso Santo Antão
Ele brilha cada vez mais
Faz brilhar os seus mordomos
Com os fatos desiguais.

Dantes o nosso Santo Antão
Era levado da breca
Tanto penteou o cabelo
Que logo ficou careca!

O brioso Santo Antão
Já vai na rua do fundo
É dos santos mais milagrosos
Que existem talvez no mundo.

Ó meu rico Santo Antão
Tu és o nosso padroeiro
Guarda os nossos animais
Sempre aqui o ano inteiro.

O nosso rico Santo Antão
Vai dar volta de lés a lés
Neste seu andor florido,
Com o seu leitão as pés.

É mesmo uma maravilha
Este nosso Santo Antão
Com o seu leitão aos pés
E a bengala na mão.

O protector dos animais
Está junto do seu altar
Para Lhe dizermos adeus
Até sua festa voltar!

In “Aldeia do Bispo – Princesa da Raia –  de Maria José Bernardo Ricárdio Costa e Maria Aurora Bernardo Ricárdio Pacheco – Edição das autoras – Julho 2003.”

Festas de Santo Antão no distrito
Santo Antão é festejado em muitos aldeias e lugares do Concelho e do distrito.
Vejamos o que nos diz Manuel Gomes da Bendada (in “Jornal Cinco Quinas de Outubro 2013”) :
… Vós , parte do concelho, tendes o forcão.
Nós, BENDADA, BENESPERA, SORTELHA, CARIA, COLMEAL DA TORRE, BELMONTE, TEIXOSO, REFÚGIO (Covilhã), temos o Santo Antão.
Do mais genuíno cancioneiro, desta parte da Beira, ouvimos ainda hoje, cantar na música original :
Hó Din Din, Hó Din Din, Hó Din Dão.
Viva o nosso Santo Antão
Mais abaixo mais a cima
Tem uma bengalinha na mão.
O Santo Antão da Bendada
É um santo milagroso
Ai ajudou os da vila*
A dar porrada nos do Teixoso.

 * Covilhã

 Protector dos animais, ainda hoje alguns lavradores oferecem os pés dos porcos que criam e abatem para serem arrematados em leilão público para a festa do Santo…”
Também, mais perto da nossa aldeia, VILA BOA e RUIVÓS festejam Santo Antão.

Outro protector dos animais: São Braz
Noutros países o protector dos animais é representado por São Braz, nascido na Arménia, festejado em 3 de Fevereiro.
O que se consta é que devido às perseguições contra o Cristianismo, ele se terá refugiado numa gruta do monte Argée na Capadócia (actual Turquia) zona de um emaranhado de cavernas. Faleceu o dia 3 de fevereiro 316 depois de imensos sofrimentos.

Os nossos pais diziam este refrão: “Em dia de São Braz, cegonha verás” porque as cegonhas regressavam ao Campanário vindas do Sul, precisamente por altura do dia de São Braz. Esse refrão correspondia de facto à constatação de uma realidade qual era a volta da cegonha para iniciar a construção do ninho no campanário mais ou menos nos princípios de cada Fevereiro/Março.

Os conceitos:

  1. padroeiro “patronariu”, o senhor = domnus ou dominus da Villa (=Quinta)
  2. Assim, enquanto patrono, padroeiro foi, de início, pessoa humana, um cristão terra-a-terra entre muitos, embora de classe abastada e possidente, só séculos mais tarde vindo a assumir e a sublimar-se na protecção espiritual; orago, logo de início, apelou para o sobrenatural, transcendente, que é o que o ser humano procura nos templos sob as invocações referidas, mas em especial quando entra no templo do seu íntimo – templo vivo sob invocação de si mesmo, cuja essência humana se projecta no divino.

Dezembro 2013

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