Aldeia do Bispo: do Entrudo ao Desfile de Carnaval

Alguns estudiosos recorrem à data da Páscoa, dizendo-nos que o “Entrudo” significaria “entrada” (na Quaresma) ou seja “ab introitu” do latim.
Uma vez fixada a data da Páscoa, retrocede-se 40 dias da Quaresma + 6 da Semana Santa para determinar a data do Entrudo.
Todavia os entendidos não se acordaram sobre o étimo de Carnaval que procede de uma palavra latina ou “carne vale” (adeus carne) ou “carrus navalis” (por alusão às festas saturnais na Roma antiga).
Entrudo” é (era?) uso exclusivo nos meios rurais, contra “Carnaval” que predomina nos meios urbanos.
Todavia os entendidos não se acordaram sobre o étimo de Carnaval que procede de uma palavra latina ou “carne vale” (adeus carne) ou “carrus navalis” (por alusão às festas saturnais na Roma antiga).
Consta-se, porém que Carnaval e Entrudo coincidem no significado de diversão folgazã, brincadeira.
Geralmente estes festejos coincidem com as temperaturas rigorosas do mês de Fevereiro.
 
I. A folia entrudesca em Aldeia do Bispo dos anos 1940-1960
Sobre o Entrudo em Aldeia do Bispo, recorda-se um Lagarteiro (alcunha dos moradores de Aldeia do Bispo) de:
- deitar a panela;
- capeia com um boi humano;
- corrida do galo;
- baile carnavalesco.
Os “entrudantes” pintavam-se toscamente com cores berrantes e vestiam o que chamasse mais à atenção ou que mais chocasse os circunstantes.
Havia o costume de, durante o Entrudo”, os rapazes da escola subirem ao balcão da casa da “Ti Maria Santiaga” (situada em frente desse prédio) e deitarem uma fita à rebatinha. Eram aquelas fitas coloridas que ainda hoje se usam.
  1. Deitar a panela
Os rapazes que já namoravam furtavam ou arranjavam uma vasilha em barro: enchiam-na de bugalhas e bugalhos, com algum rebuçado à mistura; depois, já noite dentro, com tudo o cuidado acompanhados de outros rapazes dirigiam-se a casa da “noiva”, abriam a porta que estava só no trinco, abriam-na e “lançavam a panela” que quebrava com o impacto no soalho, espalhando bugalhas e bugalhos mais alguma guloseima destinada à noiva ou à família.
Deitavam a panela e logo entravam a confraternizar.
Os rapazotes mais novos abusavam deste costume e arrancavam telhas que iam deitar em casas de pessoas que não gostavam.
Essas pessoas que não gostavam, às vezes perseguiam os atrevidos, mas na escuridão da noite (todavia não havia electricidade) era-lhes fácil evadir-se e porem-se a salvo!
  1. Capeia com boi humano
Fazia a rapaziada uma caixa de madeira a que pregavam uns cornos autênticos (geralmente de borrego) que colocava em cima do crânio e furada de dois orifícios para o “animal” poder ver.
O rapaz encaixava o engenho; cobriam-no com uma mantilha e este boi bípede sem cauda ia marrar as raparigas pelas ruas da aldeia que fugiam esbaforidas, mas agradadas porque se sentiam “honradas” com a marradela do boi-rapaz ou rapaz-boi!
  1. Corrida do Galo
Ali onde agora os Mordomos do Menino Jesus fazem o bandear no dia da festa da Senhora dos Milagres (largo do Enxido), atava-se uma corda de uma árvore a outra árvore.
Dessa corda pendurava-se um galo.
Depois, fazia-se um risco na terra: os que queriam espadeirar no galo, iam ao risco; vendavam-lhe os olhos e faziam-nos girar sobre si mesmos duas ou três voltas.
Alguns concorrentes ao darem as voltas no risco, ficavam atordoados e desencaminhados, indo espadeirar no troco das árvores ou nalgun circunstante distraído.
  1. Baile
Claro que havia baile.
Era o único divertimento, aliás, da aldeia, muito combatido pelo pároco e outras pessoas que viam no baile o limiar ou mesmo convite aos maus costumes.
O pároco, vezes sem conta denunciava o baile como um centro de perdição das almas! Do púlpito, aos domingos causticava o baile.
  1. Outras fantasias
 
Acontecia também que em alguns anos se podiam observar casos extravagantes como um Lagarteiro vestido de uma enorme capa que servia de casa de banho a quem quisesse, claro que a utilização dessa casa de banho muito especial estava submetida a um tarifário! (alguns tostões)
 
 II. A Capeia de Carnaval 1970-2000
A desertificação da população das terras raianas provocada pela emigração para França e o êxodo rural contribuíram para que além de algumas tradições se apostasse numa outra festa taurina e assim desse modo tentar cativar a diáspora.
Aquilo que era uma palhaçada em tempos (capeia com boi humano), transformou-se em verdadeira capeia (garraiada) a partir da década dos 70 do século XX com o aluguer na Espanha vizinha de umas vacas bravas e por vezes um touro ainda novato.
Eram nomeados mordomos para a organização e por vezes as boas vontades uniam-se para conseguir tal festejo.
Claro que o mês de Fevereiro não tem condições climatéricas suaves e por vezes a neve convida-se a estes festejos, provocando grandes frustrações nos “aficionados” das garraiadas.
Seriam os primeiros passos para tornar o Entrudo (Carnaval) de Aldeia do Bispo incontornável na nossa Raia de Cima Coa.
Nessa altura já começaram aparecer os cartazes humorísticos para convidar Aldebispenses, forasteiros e Nuestros Hermanos a participar nesta folia entrudesca.
Também se começou a pensar na confecção de gigantões na perspectiva de realizar um desfile com mais brio.
 
III. Desfile e garraiada de Carnaval desde 2000
Deixamos aqui o “novo” Carnaval idealizado e delineado pela nossa Conterrânea Francelina Manso que agora se realiza anualmente em Aldeia do Bispo:
“Os objectivos são de conceber e produzir um espectáculo de animação a partir da tradição carnavalesca dos tempos dos nosso avós representando as gentes, os objectos, as brincadeiras, os costumes desenvolvido numa dinâmica mais actual.
…Inúmeros “figurantes” vão dar corpo num cortejo festivo de grande envolvimento colectivo e popular. O cortejo celebra uma representação viva da festa taurina aliada à importância de uma bênção religiosa… É uma representação de todas as festividades que tornam vivas as aldeias raianas do Concelho do Sabugal, em que todas as gentes que aqui vivem, as que regressam e as que visitam poderão identificar-se em cada figurino ou adereço.
É uma aposta na transformação dinâmica de cada elemento que, aparentemente estático, compõe uma tradição. Este espectáculo reflecte um jogo de simbolismo, realçando a importância da bandeira, da capeia, das alabardas, da praça, das personagens míticas, dos andores, dos trajes, do campanário, do pinheiro numa mistura cómica que promete contagiar a população para a folia assegurando dinâmicas marcantes.”
As Associações dinamizadoras do projecto inicial – Associação da Mocidade de Aldeia do Bispo e Raiar lançaram um desafio a todos os Conterrâneos no sentido de construírem os seus próprios adereços ou colaborarem na construção de figurinos o que foi realizado com sucesso.
Hoje, as festas de Carnaval são organizadas pela Associação da Mocidade de Aldeia do Bispo com o apoio da Junta de Freguesia de Aldeia do Bispo, Câmara Municipal do Sabugal, Instituto da Juventude e demais Entidades para que se possam realizar em excelentes condições o, desfile, a garraiada e o baile.
Não se esqueçam de anotar na agenda os dias das festas carnavalescas de Aldeia do Bispo para 2017: 26, 27 e 28 de Fevereiro. Venham passar um excelente momento de convívio com os seus amigos numa aldeia que conservou as suas tradições.
 
Aldeia do Bispo 22 de Janeiro de 2017
Manuel Luiz Fernandes Gonçalves (Lei)