Choços em Aldeia do Bispo

 À semelhança do que se verifica na maioria das aldeias do concelho do Sabugal, em Aldeia do Bispo o património monumental é escasso, resumindo-se a algumas capelas ou igrejas, a um campanário, a um ou outro chafariz em granito, mais ou menos trabalhado e ao agregado habitacional que, apesar de algumas agressões de modelos importados, conservam, maioritariamente, o típico estilo beirão das casas em granito.

 Para além do património arquitectónico edificado, Aldeia do Bispo possui um outro menos estudado, e por isso menos conhecido, mas bastante rico, constituido por elevado número de sepulturas antropomórficas, moinhos de água, choços e vestígios de civilizações e cultos antigos.

 Os choços ou chafurdões, como também são conhecidos entre nós, enquadam-se dentro do que alguns autores chamam “arquitectura rural”. A maioria dos materiais utilizados na sua construção encontravam-se nos terrenos onde estão implantados, maioritariamente granito e em menor número xisto, podendo as suas paredes ser erigidas em pedra seca ou com terra amassada.

 A grande abundância de pedra e a necessidade de retirá-la para permitir o amanho das terras, tornou este material um recurso aproveitado para construir quase tudo e sem necessidade de formação muito exigente: muros de delimitação e protecção de terrenos agrícolas, muros de sustentação de poços, palheiros e, inclusivamente, habitações.

                                  (foto de paredes dos lameiros das Eiras)

 A técnica de montagem de pedras cruas, praticamente em estado bruto, secas ou com argamassa de terra, argila ou barro,de maneira a formarem uma estrutura sólida–- “é conhecida desde a pré-história e foi perpetuada em zonas de solo pobre, onde bastava ao homem baixar-se para juntar quantidades consideráveis de pedras[1].

  As habitações rurais ou cabanas assim construídas tiveram, ao longo dos séculos, diversas utilizações: abrigos para homens e animais ou entrepostos para guardar material agrícola ou provisões. As mais antigas e as de maiores dimensões foram, maioritariamente, construídas por pastores para habitação temporária ou permanente, para protecção do gado ou de animais recém-nascidos, confecção de queijo, etc. Igualmente numerosas, mas de menores dimensões, são as que foram construídas por lavradores e vinhateiros.

  Não existe um estilo único nem uma terminologia uniformemente aceite para estas construções, variando de país para país e de uma região para outra dentro do mesmo país, sendo que os materiais e, sobretudo, a utilização que lhes foi dada, determinaram algumas dessas denominações. Em Aldeia do Bispo e nesta zona do Concelho do Sabugal, são conhecidas por choço ou chafurdão; em Castelo de Vide e Marvão por choça ou chafurdão. Do outro lado da fronteira, na zona de S. Martin de Trevejo, por chozo ou choçu e, em França, são simplesmente “cabanne en pierres sèches”. Diferentemente dos choços, que têm cobertura em pedra, as choças podem estar cobertas por ramos vegetais; os chafurdões, por vezes, abrigavam porcos (que “chafurdavam”); e guardavinãs é a denominação mais comum na região vinícola espanhola de La Rioja.    

     Em sentido lato, denominam-se choços, todos aqueles espaços de habitação, permanente ou temporária, de pastores e lavradores, que reúnem condições mínimas de habitabilidade, por vezes, nenhumas, se os observarmos sob o ponto de vista urbano actual.   

 Estas primitivas construções, em geral, de planta circular ou arredondada, são um excelente exemplo de adaptação arquitectónica ao meio natural, em que não destoam, nem pela escala nem pelos materiais, de tal modo que chegam a fazer parte da paisagem na qual são um eloquente exemplo de humanização[2].

  As arquitecturas tradicionais são depositárias da capacidade cultural das populações se adaptarem e modificarem o meio ambiente, mesmo quando se trata de estruturas muito elementares, como é o caso dos choços.Os choços de pedra, como manifestações do nosso património cultural, expressam determinadas necessidades e actividades humanas, assim como experiências e vivências colectivas.

 Os choços são uma manifestação arquitectónica bastante singular que, apesar de aparecerem em lugares geográficos muito afastados entre si, apresentam sempre pontos de contacto e semelhança quanto à forma e tamanho.

 Estas construções, para a maioria dos autores, são uma continuidade das casas pré-romanas, que têm a sua origem no Neolítico. Também são muitos os que querem ver nelas uma reminiscência do que foram os castros celtas.

  Um ou outro choço, dos existentes em Aldeia do Bispo, foi utilizado como habitação temporária (exceptionalmente permanente) ou abrigo ocasional de pastores e agricultores mas, regra geral, como abrigo para o “guarda da vinha” e como armazém temporário de utensilios ou produtos fitosanitários.

 A maioria dos “chões” onde os choços estão implantados foram vinhas, em tempos, sendo ainda visiveis algumas videiras envelhecidas, que teimam em sobreviver.

 Aldeia do Bispo encontra-se no centro de uma zona muito rica em choços, compreendendo entre outras localidades: Aldeia Velha, Lageosa da Raia, Forcalhos, Navasfrias e, com particular realce, San Martin de Trevejo com os seus “choçus mañegus”.

 Ainda assim, os resultados de um pequeno inquérito, realizado em várias Juntas de Freguesia, levam-nos a concluir que o conjunto de choços que Aldeia do Bispo possui, é um dos mais ricos do Concelho do Sabugal, não só pelo seu número (cerca de duas dezenas), mas também pela sua diversidade estrutural.

 Na verdade, encontramos choços com estrutura cilindrico-cónica, rectangular ou quadrangular; com cobertura em falsa cúpula ou constituída por grandes lajes - colocadas horizontalmente ou formando um telhado de duas águas; com entradas amplas ou de dimensões reduzidas – sendo necessário rastejar para ter acesso ao seu interior; com paredes próprias ou com paredes “roubadas” aos muros de delimitação do terreno ou ao “barroco” mais próximo. Construídos maioritariamente na primeira metade do século XX, existe um que remontara aos finais do século XIX.

 A técnica de construção dos choços de base cilindrica, sobrepujada pela cobertura cónica, é originaria dos nossos antepassados celtas, tendo sido conservada e transmitida de geração em geração, até aos nossos dias.

 Quem visitar as ruinas de antigos centros celtas (a Citânia de Briteiros, entre Braga e Guimarãres, por exemplo) não deixará de reconhecer as semelhanças.

 Salvo uma ou duas excepções, a maioria dos choços, encontra-se, desde há muitos anos, sem qualquer utilização, pelo que foram ficando sumersos em silvas e “fieitos” e rodeados por denso mato de pinhos, giestas, sargaços e canabeiras.

 A maioria dos choços encontram-se em precárias condições de conservação e, apesar de ter desabado somente o tecto de um deles, são visíveis rombos nas paredes, em muitos outros, deslocação e queda de lajes ou deslizamento da terra da cobertura, pelo que urge iniciar obras de manutenção.

 Os choços de planta circular ou arredondada, existentes em Aldeia do Bispo, foram construídos integralmente de pedra granítica ou de xisto, cujas paredes se vão fechando, formando uma falsa cúpula, através da aproximação de camadas do mesmo material dos muros.

 Mais de metade dos choços possuem pequenas janelas, habitualmente duas. A tipologia das janelas é semelhante à das frestas dos castelos medievais, estreita do lado de fora e mais aberta no interior do edifício.

 

Dimensões

Altura total

Altura sob a abóbada

Altura exterior das paredes

Altura exterior da cobertura

Diâmetro interior

280cm

270cm

185cm

95cm

240cm

Espessura das paredes na base

Espessura das paredes no arranque da abóbada

Altura sob o lintel

Largura da entrada

85cm

 

95cm

130cm

56cm

 

 

Este choço localiza-se no sítio do Vale da Mulher, a cerca de 50 metros de um importante conjunto de sete sepulturas antropomórficas.

 Foi mandado construir por Francisco Martins Grencho, em 1947, ao ti Barroco, dos Forcalhos.

 Construção de falsa cúpula, pertence ao tipo de choços de planta circular e pequena dimensão, paredes espessas de juntas cruas, com pedras de granito e terra, recolhidas localmente. A cobertura está revestida, exteriormente, por terra recolhida no local.

 A entrada do choço está virada a noroeste, na direcção do terreno onde anteriormente existia a vinha, cujo Guarda se pretendia que abrigasse. Era utilizado apenas no período de tratamento da vinha e amadurecimento das uvas, nunca tendo tido porta, a qual era substituída temporariamente por um molho de giestas.

 A estrutura exterior é cilíndrica, sobrepujada de uma cobertura cónica. À altura máxima, esta estrutura é completada com uma laje oval. A construção é em pedra granítica e terra amassada.

 Este choço é o único a possuir uma chaminé, talhada na parede do lado poente, com uma abertura na cúpula, dificilmente detectável do exterior e com um corpo interior formado por dois pequenos muretes para contenção da lenha da lareira.

 O choço do Vale Portinho, bem no centro de um antigo “chão” de castanheiros, actualmente eucaliptal.

 Dimensões

Altura total

Altura sob a abóbada

Altura exterior das paredes

Altura exterior da cobertura

Diâmetro

280cm

270cm

180cm

90cm

300cm

Espessura das paredes na base

Espessura / paredes no arranque da abóbada

Altura sob o lintel

Largura da entrada

70cm

 

110cm

147cm

72cm

 

 Utilizado frequentemente como abrigo e ponto de encontro de caçadores, em caçadas organizadas pelo Dr. Francisco M. Manso, a sua principal função, no entanto, era servir de apoio no tratamento dos castanheiros e, sobretudo,  para guarda provisória das castanhas, até ao seu transporte para a povoação.

 É o único dos três choços de falsa cúpula a ser construído em pedra seca de xisto castanho, recolhido localmente e da mesma cor da terra que reveste a cobertura e aquele que possui maior diâmetro na base.

 Possui uma entrada de dimensões generosas (147X72cm), virada a sul que, no período em que foi utilizado, comportava uma porta de madeira, com sistema de fecho. Existem, ainda, três frestas orientadas no sentido dos restantes pontos cardeais: norte, este e oeste.

 O plano exterior é constituído por uma base cilíndrica, encimada por uma cobertura cónica, que termina num colar saliente de pedras encastradas a toda a volta.

 O plano interior é circular até à altura do arranque da abóbada (110cm) a partir da qual passa a ogival.

 Encontra-se em razoável estado  de conservação, carecendo, todavia, da recolocação de algumas pedras nas paredes e da laje de fecho, para além da reposição de terra na parte exterior da cobertura.


 Este choço localiza-se no sítio das Eiras, a cerca de cinquenta metros do caminho para o Prado Castelhano, actualmente no meio de pinheiros e giestas.

 Dimensões

Altura total

Altura sob o tecto

Dimensão interior

170cm

160cm

190X135cm

Espessura das paredes

Altura sob o lintel

Largura da entrada

35cm

130cm

60cm

 Situado em terreno arável, encostado bem ao limite da propriedade, assenta, inclusivamente, uma das suas paredes laterais no próprio muro da “linde”. Foi construído com pedras secas de granito, de diferentes dimensões, semelhantes, na forma e no tamanho, a muitas outras que se encontram nas paredes à sua volta, o que denuncia a proveniência dos materiais e justifica a irregularidade de espessura das paredes.

É o choço que se encontra mais próximo da freguesia de Aldeia do Bispo, sugerindo ter sido utilizado como abrigo de recurso em intempéries repentinas e inesperadas.  

 Pertence ao tipo de choços de pequenas dimensões (235cm2) e planta em forma de U, com parte da parede posterior e da cobertura, arredondadas.

 Na cobertura foram utilizadas várias lajes, de diferentes dimensões. A técnica do seu assentamento consistiu na colocação da primeira laje no ângulo formado por duas paredes, a da segunda, no ângulo formado pela laje anterior e uma das paredes e assim, sucessivamente, até ao fecho total por uma grande laje de cobertura.

 A altura da abertura (virada a noroeste) obriga a que a entrada se faça de forma curvada, não sendo visíveis quaisquer vestígios da existência de porta fixa. Não possui lareira ou nichos interiores, existindo apenas uma pequena janela (25X30cm), virada a oeste.

 O estado de conservação é bastante precário, encontrando-se uma das ombreiras da entrada em deslizamento, o que, a suceder, poderá levar à derrocada total da cobertura.

 

 Este choço localiza-se no sítio do Prado João Vaz. Foi construído com pedras de granito e terra amassada, possui uma estrutura em que sobressaem as pedras angulares e de travamento, em granito e de dimensões significativas, colocadas estrategicamente.

 Dimensões

Altura total

Altura exterior das paredes

Dimensão interior

235cm

195cm

335X225cm

Espessura das paredes

Altura sob o lintel

Largura da entrada

60cm

165cm

 60cm

 De planta rectangular possui, como principal característica distintiva, uma cobertura a duas águas, constituída por lajes de grande dimensão – uma das quais com uma superfície de 335cm2, entretanto quebrada – suportadas por duas cumeeiras de madeira.

 A abertura, virada a sudeste, permite um acesso fácil ao interior. Nas paredes norte e nascente existem duas frestas, possuindo ainda dois nichos interiores.

 Embora não possua chaminé ou orifício específico para o escoamento do fumo, o fogo foi ascendido com regularidade no seu interior.

 Embora ainda sem danos significativos, este choço encontra-se em risco de desabar, atendendo à pesada cobertura, à ausência de uma das cumeeiras e à deterioração evidente da que ainda resta.

 

                                           (Foto Gilo Nabais)

  Este choço é o exemplo acabado do partido que os nossos antepassados tiravam dos recursos que tinham à mão: um barroco, de grandes dimensões e com um dos lados sobreelevado permitiu, com um pequeno esforço de escavação, disponibilizar um espaço onde várias pessoas se poderiam abrigar em caso de necessidade.  

 

Fancisco Ricardo


[1]Lassure, Christian, "La pierre sèche", dans L'architecture vernaculaire, t. 21, 1997, p. 3.

[2]Galindo, José Luís Martín, Os Choçus Manhegus – Estudo y Censo de los Chozos de San Martín de Trevejo, 1995.