Vivências a Cor 1

É noite cerrada, noite gélida de inverno, esvoaçam densas nuvens sobre o cabeço vermelho, em direcção à serra da Xalma. Sopra o vento frio, agitando a ramaria do arvoredo, fustigando os rostos dos dois corpos, que se movem na escuridão. Como sombras, deslizam por veredas, a corta-mato, ou por caminhos tantas vezes calcorreados, de que parecem conhecer todas as pedras e portais.

 

O medo do desconhecido não os intimida. Apenas algo os mantém em permanente alerta, são as sombras que se deslocam aos pares, com as mantas às costas.

Tal como eles, sofrem dos mesmos males os guardas e os carabineiros, mas por razões antagónicas. Procuram também ganhar o pão de cada dia.

Uns são a razão da existência dos outros.
Há outros pares ou grupos disseminados pelos campos, que rompem por matagais silenciosamente, como fantasmas ou almas penadas, para trazer migalhas, para matar mágoas do corpo e da alma.

Músculos coriáceos, alongados como cordas de violão, trabalhados no ginásio da vida, Maria da Luz e João das Armas, já estão habituados desde tenra idade, a fazer pela vida.
Rostos enegrecidos, pelos rigores dos maus-tratos dos tempos de invernia, ou dos calores escaldantes estivais.

Ora secando a água dos poços, ou represas, para regar as leiras de batatas, feijão, milho, ceifando ou malhando nas lajes graníticas, o centeio que matará a negra fome, com o pão negro.
De dia, mourejando nos campos, de noite, carregando às costas com os vinte quilos de café, azeite ou outros géneros.

Pouco resta da vida, que não tenham já experimentado.
Nem os tiros ou gritos de «Há Guardas», que ecoam no silêncio da noite, como o rugido de um leão, gerando fugas desordenadas para que cada um salve como puder a sua preciosa carga.
Maria da Luz e João das Armas não vivem de sonhos ou quimeras. Só sabem que o seu fado é a vida feita tormento, sem avistarem o nascer da aurora para mero deleite contemplativo.
São como folhas soltas ao vento, que se esfumam na vã ventura da esperança, que se dilui no calvário do dia-a-dia. Mas abandonar a carga, isso nunca!

O perigo espreita-os ao dobrar de cada esquina, ou curva do caminho, no tropeção de pequenos grandes obstáculos no emaranhado da vegetação, no salto de cada riacho.

Não choremos o seu fadário, porque no triunfo de cada regresso a casa, encontram a suprema compensação para as mágoas do seu calvário.
No clarear de cada aurora, nova esperança renasce, nova primavera os aguarda, na esperança de noites mais claras.

A juventude é, por agora, a força que tudo vence.

«Vivências a cor», de Alcínio

Blog capeiaarraiana.pt Terça-feira, 2 Julho, 2013

 

As voltas da vida - Alcinio

João das Armas deitara-se cedo,
quando o sol ainda mal se escondera no horizonte. Tinha planos para esta noite

A seu lado, no mesmo catre, o irmão mais novo dormia a sono solto. Acordara várias vezes durante a noite com pesadelos, sem saber se era alguma preocupação, ainda não identificada, ou se receava adormecer e não acordar à hora acertada com os outros membros da «companha».

Já tinha os carregos de café escondidos atrás duma parede falsa, que parecia segurar um barroco, para os lados da Marigil.

Os dois carregos de café, o dele com vinte quilos e o do irmão de quinze, tantos quantos os seus anos de idade.

Os sacos do café foram transportados no meio do estrume dos animais, num carro de vacas, entre uma «facha» de palha, para não se conspurcarem. O Ti António do Moinho fizera-lhe esse favor, pois andava a estrumar o «chão» junto ao moinho. Passara tranquilamente defronte ao quartel, sem levantar suspeitas.

Havia uma certa promiscuidade entre os conterrâneos. Umas vezes precisavam uns, outras vezes os outros. Podemos afirmar com toda a segurança, que nem os guardas fiscais e nem mesmo os caravineiros e guardas civis escapavam à regra.

João das Armas já se levantara, acordara o irmão, vestira as calças de pana, rafadas pelo muito uso, metera as bainhas dentro das meias, vestira a camisa sem colarinhos e o casaco com remendos, pois já suportara centenas de carregos.

Partira um «codorno» de pão e um naco de queijo, que cada um irá comendo pelo caminho até chegarem à raia, entre a casa do Capoto e a Devesa.

Eram quatro da madrugada. Duas horas com os carregos às costas os separavam ainda de Payo.

O João gostava de andar em pequenos grupos, normalmente com familiares ou amigos mais próximos.

Enquanto caminhavam, teve tempo para descer o alçapão da memória. Aí guardava todas as venturas e desventuras do passado. Remexia e procurava neste seu armazém onde inventariava, por entre trapos velhos, as recordações, umas boas, outras em que não devia tocar porque existiam cicatrizes que ainda poderiam sangrar. Havia cacos partidos em muitos bocados, que necessitava juntar, para encontrar o fio da meada da sua vida.

Tinha estudado no seminário vários anos, o que o habilitou, com saber e conhecimentos, para ser capaz de estruturar as ideias com coerência, assim juntando a solidez física com a intelectual.

João das Armas abandonara o seminário, porque isso colidia com o seu apego à liberdade. Nunca ninguém fora capaz de lhe pôr peias, era livre como o vento e rápido como o pensamento. Não compreendia muitas coisas em que teria que acreditar, mesmo que as não entendesse. Disseram-lhe que tinha um problema, o do escrúpulo.

Mas isso agora não tinha importância, porque o que o atormentava verdadeiramente, era se de uma vez por todas decidia dar o salto para França, como alguns amigos já o haviam feito, porque isto não era futuro.

Estava embrulhado nestas cogitações, quando deu conta que chegavam a Payo. Era necessário esconder os carregos. Apesar de Payo não ter posto de caravineiros, todo o cuidado era pouco.

O grupo que vinha à frente também já chegara e tinham combinado juntar-se na taberna do Pempo, e aí negociar a entrega do café.

A casa tinha uma porta por onde se entrava para a cozinha e a da taberna propriamente dita do lado oposto. Esta tinha uma porta interior que se fechava por dentro e a do costume destas casas, que era constituída por duas partes que abriam para dentro e para fora.

Começara a clarear e as montanhas circundantes iam-se recortando no horizonte, emergindo da escuridão onde estiveram mergulhadas.

Estavam todos relaxados e a descansar após o violento esforço, quando, subitamente, uma cabeça coroada por um bivaque com uma «borla» pendente surgiu em frente da porta.

João das Armas lera logo a situação e arremeteu violentamente contra a porta, levando de roldão o caravineiro que se preparava para entrar, escapando-se no meio das sombras.

Os que estavam dentro tentaram fugir pela porta da cozinha mas foram travados por um outro caravineiro que disparou para o ar, o que fora uma sorte, já que os espanhóis não tinham muita relutância em atirar a matar se não fossem obedecidos.

Dois dos contrabandistas esconderam-se dentro da chaminé e não foram detectados. Um do grupo foi retirado do local e, depois duma grande tareia, acabou por confessar onde estava escondido o contrabando. Os caravineiros deixam-no depois em liberdade.

O Zé da Ti Pura era conhecido de um caravineiro, a quem pediu para ir fazer as necessidades, no que aproveitou para se raspar.

Os oito restantes, entre os quais o irmão do João das Armas e mais dois menores, foram levados para Salamanca e internados num orfanato de padres. Os restantes cinco foram conduzidos para a prisão da mesma cidade.

Após o pagamento da multa estipulada, foram libertados. O Zé Cantador teve mais dificuldade porque o pai não trabalhava, e para o libertarem, uma vez que queria ter a folha limpa para ir para a carreira militar, o pai teve que vender um «chão» para pagar a «murta».

Os três menores foram entregues à GNR, em Vilar Formoso, e cumpriram quarenta e oito dias de prisão no Sabugal…

Consta-se que houve «acuso» nesta história.

Depois foram precisas várias noitadas, à Torre ou Gata para recuperar o prejuízo desta apreensão…

«Vivências a cor», de Alcínio in

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Terça-feira, 16 Julho, 2013   Vivências a Cor