História

por Manuel Luiz Fernandes Gonçalves
Novembro 2013

Dizem que para compreender o presente é necessário conhecer o passado.
Esse passado (a História) nem sempre é fácil de deslindar por vários motivos e interesses divergentes daqueles que contribuíram para o (a) escrever. Enquanto nos nossos dias o analfabetismo quase desapareceu nos países europeus, nem sempre foi assim. Outrora, a maior parte dos eventos eram registados (lavrados) pelas pessoas (uma minoria) que sabiam ler e escrever, geralmente os clérigos e alguns nobres, quer dizer uma parte muito reduzida da população.
Essa história escrita contempla essencialmente grandes eventos que lhes convinham lembrar e muito pouco o dia a dia da maioria que se dedicava a lavoura. Uma grande parte dos documentos que contemplavam dados e eventos importantes e menos foram-se perdendo com o tempo devido as guerras, incêndios, roubos e outras destruições que a tradição oral não conseguiu trazer para a luz dos nossos dias. Mas nem sempre foi tudo escrito no papel, vejamos os sinais que muitos povos fixaram na pedra: montes de informações. Também os nossos Antepassados deixaram pelas essas terras fora de Ribacôa e do país muitos sinais esculpidos na pedra que não vemos ou que não sabemos decifrar.

Na década 90 do século XX tive a oportunidade e o privilégio de seguir os passos do Reverendo Pe José Esteves Luís pelos caminhos e barrocos de Aldeia do Bispo. Foi nessa caminhada que o livro das pedras de Aldeia do Bispo se abriu para mim graças a erudição desse ilustre Padre, conhecedor de todos os cantinhos da nossa Aldeia. Tive o prazer imenso de ler nas pedras sinais dos nossos longínquos Antepassados e apreciar certos monumentos que chegaram até os nossos dias e que se encontram por vezes no meio de denso matagal.

Acontece que, desde essa inolvidável caminhada, não reparo para as pedras da mesma forma. Tarefa árdua que tentar compreender a “linguagem” das pedras quando o nosso mestre já foi chamado para outras paragens. Penso eu como alguns dos caminhantes desse dia que esse legado deve ser levado ao conhecimento da comunidade e preservado do vandalismo e modernismo. Simbologia das pedras, recravas para suporte da estrutura da casa Lusitânia/Vetã, sepulturas escavadas na rocha, cruzinhas e covinhas (fôssetas) esculpidas nos barrocos ou em pedras soltas, santuários, etc.; todos esses “tesouros” me levam a crer que há necessidade de levar ao conhecimento dos filhos de Aldeia do Bispo residentes e não residentes como ás novas gerações a História destas terras cuja fronteira (Raia) foi sempre muito aleatória.

Advirto o leitor que não sou historiador, nem etnólogo e ainda menos arqueólogo; o trabalho apresentado é baseado nos autores clássicos e investigações próprias, quero somente fazer renascer e perpetuar a cultura das nossas gentes e das nossas terras.

 

Apontamentos para a História de Aldeia do Bispo

Aldeia do Bispo é uma antiquíssima povoação do concelho de SABUGAL, que dista cerca de 25 km, da capital do distrito GUARDA de 60 km e do posto fronteiriço e estação de caminho de ferro de VILAR FORMOSO, 45 km.
Pela sua situação geográfica (a 1,5 km da fronteira espanhola), foi sempre um ponto de passagem para a aldeia espanhola de NAVASFRÍAS (5 km) e também para as vilas de VALVERDE DEL FRESNO (16 km), CIUDAD RODRIGO (50 km) e a cidade de SALAMANCA (130 km). Estes laços com a vizinha Espanha, já são longínquos considerando que até 1296/1297 os territórios da margem direita do rio Côa e por conseguinte de Aldeia do Bispo eram pertença do Reino de Castela e Leão.

Fica distante 5 km da nascente do rio Côa.
No limite de Aldeia do Bispo, é, em parte, a ribeira da Raia (Ribeira do Codessal, segundo documento antigo de 1226) que divide as duas nações.
A aldeia é banhada pela Ribeira dos Munhos e seu afluente Ribeira do Poço que atravessa o centro da povoação e lhe dá um aspecto muito pitoresco, as suas águas escoam para a aldeia vizinha de Lageosa. 
A ribeira do Codessal e dos Munhos vão desaguar no rio Rio ÁGUEDA (Rio de NAVASFRÍAS), cujas águas se juntarão no rio Douro.
A sul, prolongamento das serras espanholas da Peňa de Francia e Jalama (Xalma) e serras portuguesas das Barreiras, Cabeço Vermelho e das Mesas; a poente, Malhão e Matança.

A cobertura vegetal mudou muito após a praga dos incêndios florestais das décadas 70 e 80 do século XX, o pinho foi substituído pelo eucalipto e o carvalho negral apoderou-se da maior parte das terras.
A produção da castanha também diminuiu drasticamente por falta de tratamento e devido à doença da tinta.

Recentemente alguns soutos de castanheiros foram plantados.

Nas árvores frutíferas são abundantes as macieiras e marmeleiros.
Com a mudança do manto florestal e falta de exploração das terras, também a fauna procurou outros lugares: o lobo está extinguido desde a década 80 do século XX, a lebre e o coelho como a perdiz tornaram-se escassos. Só a raposa é que conseguiu adaptar-se a esta nova situação. Outros animais percorrem agora o limite de Aldeia do Bispo: corços e javalis (em grande quantidade).
Com paciência, também se pode observar o esquilo e denosinha.
As pegas azuis e aves de rapina investiram agora os céus límpidos desta freguesia.

Os seus limites confrontam com os da Lageosa, Aldeia Velha, Fóios e da espanhola Navasfrías.
A nível geológico, o granito de grão grosso domina a paisagem, excepto nas serras do Malhão e Matança onde predomina o xisto.

A altitude média da aldeia situa-se à cota de 930 m, o clima é continental com fortes amplitudes.

É difícil definir o aparecimento desta povoação, dado não haver documentos comprovativos. No entanto os achados apontam para a existência de um povoado na época pré-histórica.
Também não conhecemos o nome primitivo de Aldeia do Bispo, o nome actual da freguesia aparece já no ano 1320. Podemos alvitrar a hipótese que o nome antigo fosse do desagrado da Igreja.
Aldeia do Bispo teve uma população importante até a década 50 do século XX, a partir de 1960 foi registado um grande despovoamento.
Este êxodo, no início, rural, para Lisboa, Porto e Coimbra, acentuou-se depois para os países europeus: essencialmente para França.

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